Cotidiano e Psicanálise

Você ainda sabe parar?

Oi Psi | Leitura: 7 min

Você termina uma tarefa. Antes mesmo de sentir a onda de satisfação, já se encontra procurando a próxima. Responde um e-mail e lembra do curso que te indicaram. Fecha o notebook e pensa que poderia ter treinado. Deita para descansar e lembra daquela mensagem que ainda não respondeu. Aos poucos, o descanso deixa de ser descanso. Ele vira mais um intervalo entre uma obrigação e outra.

Talvez você conheça essa sensação. Não há nenhuma urgência real, mas existe um incômodo difícil de explicar, como se sempre houvesse algo esperando por você. Um "deveria" que insiste em aparecer mesmo quando tudo já foi feito.

Nos últimos anos, tentamos dar muitos nomes a esse incômodo. Chamamos de hiperprodutividade. Depois, de ansiedade. Alguns o chamaram de FOMO (Fear of Missing Out), expressão popularizada para descrever o medo constante de estar perdendo experiências, oportunidades ou possibilidades enquanto a vida parece acontecer em outro lugar. Os nomes mudam conforme a época. O incômodo, nem tanto.

O descanso dura poucos minutos até se transformar em culpa. É como se existisse uma voz que nunca encerrasse o expediente. Curiosamente, a psicanálise fala sobre essa voz há muito tempo.

Em O Mal-Estar na Civilização, Freud (1930/2010) já apontava que uma parte importante do sofrimento humano nasce da forma como nos relacionamos com a própria civilização.

Ao descrever o supereu, ele fala de uma instância psíquica que internaliza exigências, produz culpa e participa da constituição da vida em sociedade. Durante muito tempo, essa exigência apareceu principalmente como uma voz que dizia: "você não pode". A experiência contemporânea, porém, parece ter lhe ensinado uma frase nova.

Essa voz já não bate à porta. Ela ganhou uma cópia da chave.

Entra sem pedir licença. Abre as janelas logo cedo. Caminha pelos cômodos da casa como quem sempre morou ali. Senta à mesa do café da manhã. Espera por nós no silêncio do elevador. Deita ao nosso lado quando finalmente decidimos descansar.

Ela não chega impondo. Chega seduzindo. Agora pergunta, baixinho: "Você não acha que poderia estar fazendo mais?" É uma mudança sutil, mas profundamente violenta.

A culpa deixa de surgir apenas quando transgredimos uma regra. Ela passa a aparecer quando sentimos que não alcançamos tudo aquilo que, em tese, seria possível alcançar. Porque, se tudo parece possível, descansar passa a soar como desperdício. Já não basta trabalhar; é preciso subir de cargo em tempo recorde. Não basta estudar; é preciso ser o melhor da turma. Não basta descansar; é preciso descansar da maneira certa. Tudo isso enquanto acordamos às cinco da manhã para correr uma maratona.

Talvez seja por isso que até as atividades mais simples tenham sido atravessadas pela lógica do desempenho. Caminhar deixa de ser apenas caminhar quando contamos os passos. Dormir deixa de ser apenas dormir quando um aplicativo avalia a qualidade do sono. Ler um livro já não basta; agora acompanhamos metas, listas e números. Quase tudo pode ser medido, comparado e otimizado.

Ao longo de seu ensino, especialmente em O Seminário, Livro 17 (1969–1970), Lacan propõe uma leitura do supereu que amplia a formulação freudiana.

Essa instância já não aparece apenas como aquela que proíbe, mas também como aquela que ordena. Seu imperativo deixa de ser somente o da renúncia e passa a ser também o do gozo: aproveite mais, produza mais, desenvolva seu potencial, seja sua melhor versão. O paradoxo é que aquilo que deveria produzir prazer passa, pouco a pouco, a ocupar o lugar da obrigação. E toda obrigação que não encontra um limite também produz sofrimento.

E eis que a angústia chega. E ela não chega falando baixo.

Talvez seja por isso que tantas pessoas se sintam exaustas mesmo depois de um fim de semana inteiro. Às vezes, não é o corpo que não descansou. É essa voz que não cala.

A psicanálise não promete silenciá-la. Mas talvez ofereça algo igualmente importante: a possibilidade de reconhecê-la.

Porque talvez o primeiro descanso não comece no corpo. Talvez ele comece no instante em que percebemos que essa voz, por mais íntima que pareça, não é a única a falar por nós.